Os estudantes da rede pública estadual de Alagoas que integram o Grupo 4 do programa Daqui pra o Mundo já transformaram o deslumbramento da chegada em engajamento prático ao longo desta primeiros dias em solo britânico. Desde o desembarque, superando a maratona de voos e conexões internacionais em Madri e Lisboa sob a coordenação da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), a comitiva vive um período de imersão absoluta. Acomodados em suas respectivas casas de famílias anfitriãs (host families), os jovens dividem o tempo entre a adaptação aos costumes ingleses e o início das atividades letivas regulares em Cambridge, no leste da Inglaterra.
A iniciativa, viabilizada pelo Tesouro Estadual, representa o maior programa de internacionalização da história da educação alagoana, cobrindo desde a burocracia de passaportes e vistos até o custeio de bolsas de manutenção internacional para garantir equidade aos estudantes da rede pública.
Com as mochilas carregadas de projetos de vida e o olhar atento a cada detalhe arquitetônico dos tradicionais colleges, esses jovens começam a escrever seus nomes na crônica de uma das cidades mais intelectuais do planeta. Abaixo, detalhamos o perfil, as origens e a bagagem cultural de cada um dos embaixadores alagoanos em Cambridge.
A ciência da vida e a vanguarda da saúde coletiva
Cambridge é o berço de descobertas biológicas e genéticas revolucionárias, uma atmosfera que se conecta diretamente com a vocação médica e assistencial levada por uma ala de destaque da delegação alagoana.
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Vinda de Maceió e estudante da Escola Estadual Moreira e Silva, Sandrielly Nascimento de Lima, de 17 anos, transformou a paixão herdada dos pais pelos livros em combustível para um projeto de vida voltado ao bem-estar social. Fã do clássico O Fantasma da Ópera e inspirada pelo versículo de Josué 1:9 (“Seja forte e corajoso”), ela foca em Biologia, com ênfase em anatomia e genética.
“Meu sonho é prestar um curso na área da saúde, estou aberta a compreender esta área tão ampla e diversificada, pois assim posso auxiliar e servir as pessoas em uma área que gosto tanto e tenho total inclinação”, planeja Sandrielly.
Essa mesma determinação em cuidar do próximo guia Beatriz Barbosa Figueiredo, de 16 anos, moradora de Arapiraca e aluna do Colégio da Polícia Militar. Pianista e dançarina nas horas vagas, Beatriz tem facilidade com idiomas e adota a canção Hotel California (Eagles) como trilha sonora, defendendo que a disciplina é o motor de tudo. “Meu grande sonho é ser médica e conhecer o mundo. Um sonho custa caro, mas desistir custa um sonho”, pontua de forma convicta.
O Agreste também mostra sua força acadêmica com Rayra Riquelly dos Santos Bóia, de 17 anos, aluna do Colégio da Polícia Militar Tiradentes, em Arapiraca. Dona de um envolvimento profundo com a literatura e fã da obra Cem Anos de Solidão, Rayra une seu raciocínio lógico na Química ao domínio morfológico dos textos, inspirando-se nos diálogos de A Sociedade dos Poetas Mortos. “O curso que desejo é medicina, passarei alguns anos na faculdade até realmente me formar e ir viver outras aventuras. Quero visitar cidades históricas como Roma, Praga e Edimburgo, aproveitando a própria dádiva da vida”, revela.
Da capital, Linda Maria Lins Patriota, de 17 anos, representa o Colégio da Polícia Militar de Maceió. Praticante apaixonada de esgrima, artesã de crochê e fã do livro Uma Questão de Química, Linda adota o lema de que o conhecimento move montanhas através do estudo. “Meu grande sonho é viajar pelo mundo e ser médica dermatologista, para que eu possa ajudar não só a cuidar da saúde da pele das pessoas, mas também cuidar da autoestima delas”, destaca.
Fechando o forte bloco de saúde no sertão, Grinaura Sofia Silva Vieira, de 17 anos, leva o nome da Escola Estadual Lucilo José Ribeiro, de São José da Tapera, para Cambridge. Pianista dedicada e fã de rock clássico, Sofia equilibra o talento musical com o gosto pela Física na escola, adotando a reflexão de que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão. Seu objetivo principal no exterior é acumular repertório cultural e linguístico para consolidar uma meta nobre. “Meu sonho é cursar medicina, aprimorar meus conhecimentos na música e construir um lar”.
Estratégia, tecnologia e raciocínio lógico matemático
A precisão exata, a programação de dados e o raciocínio estratégico pautam o perfil de estudantes que enxergam na cidade de Isaac Newton o laboratório perfeito para o desenvolvimento de suas carreiras tecnológicas.
Natural de Arapiraca e estudante da Escola Estadual Professor José Quintella Cavalcanti, Bianca dos Santos Vieira, de 17 anos, une de forma singular a sensibilidade sociológica ao rigor científico. Fã do livro Fahrenheit 451, Bianca deseja cursar Física Médica e atuar na pesquisa quântica. Inspirada pela frase de Evaristo Conceição (“Avanço mais e mais na mesma proporção desse medo. É como se o medo fosse uma coragem ao contrário”), ela traçou uma meta de forte impacto social. “Meu sonho é combater a precarização do serviço público em relação aos cuidados de pessoas com câncer, usando o espaço individual para a compreensão do outro e fortalecimento da empatia”.
Na área da computação e engenharia de sistemas, Maceió brilha com Samuel Wesley Dos Santos Silva, de 17 anos, aluno da Escola Estadual Moreira e Silva. Cristão, pianista e fã de tecnologia, Samuel tem na Matemática sua matéria favorita para estruturar a mente diante de problemas complexos, amparando sua resiliência no Salmo 62:5. “Tenho o objetivo de me formar em Ciência da Computação e seguir carreira no mercado de tecnologia, criando soluções inteligentes e inovadoras. Vejo o intercâmbio como a oportunidade perfeita para melhorar meu inglês e crescer como pessoa”, projeta.
Essa mesma paixão pelos códigos move Lucas Guilherme Ferreira Dioclecio, de 17 anos, vindo do município de Ouro Branco e estudante da Escola Estadual Professora Joanita de Melo. Escritor de diários e fã da canção True Love Waits (Radiohead), Lucas mantém contato afetivo com a língua inglesa desde a infância. Inspirado pelas palavras de Kendrick Lamar sobre aceitar e apreciar as tribulações da trajetória, ele define sua meta internacional de maneira direta. “Um dos meus sonhos é viver fora do Brasil, e pretendo fazer Ciência da Computação para expandir minhas habilidades”.
No campo da estratégia pura, Luiz Fernando Gomes Macedo, de 17 anos, representa a Escola Estadual Onélia Campelo, em Maceió. Jogador focado e criador de conteúdo sobre xadrez, Luiz Fernando utiliza a geopolítica, a história e a geografia para decifrar as relações de poder globais. Inspirado pelo mestre Garry Kasparov (“Você precisa assumir riscos, porque a vitória vem da coragem de sair do equilíbrio”), o jovem enxerga o intercâmbio como o tabuleiro ideal para o seu crescimento profissional. “Quero alcançar o título de Mestre Nacional de xadrez, aprender novos idiomas e, no futuro, empreender e construir meu próprio negócio com propósito”.
Unindo a lógica ao dinamismo, Davi Conceição da Silva, de 17 anos, leva a tradição da Escola Estadual Professor José da Silveira Camerino (Premem), de Maceió, para a Inglaterra. Tocador de saxofone e flauta, jogador de vôlei e fã do universo Pokémon, Davi tem facilidade com cálculos matemáticos e apoia-se na máxima socrática “Só sei que nada sei”. “Não tenho nenhum sonho específico em mente, só quero construir uma família feliz, ter uma casa em boas condições e de preferência morar em outro país”, aponta.
Direito, jornalismo e transformação social
O senso de justiça, a educação, a comunicação e o desejo de dar voz às necessidades coletivas marcam o perfil dos estudantes de humanas que encontram na tradição jurídica britânica um espelho para suas ambições.
Natural de Major Isidoro, no Sertão, José Gracindo da Rocha Neto, de 17 anos, estuda na Escola Estadual Constança de Goes Monteiro. Conhecido pelas famílias e amigos como um jovem extremamente eloquente, Neto adora debater temas sociais e tem na Sociologia a base para compreender as irregularidades do modelo civil atual. Guiado pelo lema “Let it happen” (Tame Impala), ele associa a experiência internacional aos seus planos de ascensão. “Meu maior objetivo é me formar em Direito em uma universidade de prestígio, atingir estabilidade financeira e vivenciar as mais diversas culturas e histórias nos variados países desse mundo”.
O desejo de defender direitos também move Miguel Guimarães da Silva, de 17 anos, estudante da Escola Estadual Princesa Isabel, em Maceió. Comunicador nato e atleta focado na disciplina coletiva, Miguel inspira-se nos versos da canção Clareou (Xande de Pilares) e na máxima de que o esforço de hoje constrói a conquista de amanhã. “Meu grande sonho é cursar Direito na faculdade e trabalhar ajudando outras pessoas, buscando a justiça e fazendo a diferença na vida de quem precisa para contribuir para uma sociedade melhor”, afirma.
Na área da comunicação de massa, Misaely Noemi Melo Dos Santos, de 17 anos, leva o nome da Escola Estadual Humberto Mendes, de Palmeira dos Índios, para o Reino Unido. Repórter de quadra do projeto de educomunicação Pibic Jr (Sanfra Sports), Misaely escreve poesias, analisa criticamente a história das grandes guerras mundiais e defende que ideias mudam o mundo, amparando-se em A Sociedade dos Poetas Mortos. “Desde pequena meu sonho é ser jornalista esportiva, cultural ou de guerra. Há muitas pessoas no mundo que merecem que suas histórias sejam ouvidas, e quero deixar um legado que ajude a moldar a sociedade através das minhas opiniões e dizeres”, declara de forma firme.
A advocacia criminalista dita as metas de Marcos Vinicius Santos da Silva, de 17 anos, vindo de Craíbas e aluno da Escola Estadual Nossa Senhora da Conceição. Focado no aprendizado de línguas como inglês, francês e espanhol, Vinicius adora o cinema de Até o Último Homem e cita o pensamento revolucionário de Che Guevara para definir seu ímpeto jovem. “Meu maior sonho é cursar direito e me tornar um advogado criminalista, pois sou apaixonado por essa área desde criança, além de pretender cursar Letras para passar meus conhecimentos adiante”, pontua.
Educação, Psicologia e as Expressões Culturais do Interior
A sensibilidade artística, a licenciatura e a defesa da igualdade educacional fecham a apresentação do Grupo 4, mostrando o compromisso de jovens do interior em retornar ao estado como agentes modificadores de realidades.
De Major Isidoro, Brenda Aylá do Nascimento Silva, de 17 anos, representa com orgulho a Escola Estadual Constança de Góes Monteiro. Dedicada aos estudos teológicos, à fotografia e à leitura de Filoteia, Brenda tem na Química sua paixão pelo “zoom” molecular que a matéria dá no mundo. Inspirada por São Francisco de Sales (“A doçura é a flor da caridade”), ela revela sua vocação institucional. “Por amar a educação e seus benefícios, meu sonho é fazer licenciatura e trabalhar com o ensino de Química, inspirando-se nos muitos professores da rede pública estadual para levar conhecimento adiante”.
Em Palmeira dos Índios, Mirelly Barros Noronha, de 16 anos, estuda na Escola Estadual Monsenhor Macedo. Movida por paixões profundas em política e pela resiliência de sua fé na Umbanda contra a intolerância, Mirelly adota a frase de Winston Churchill (“Nunca, nunca, nunca desista”). Seu projeto de vida está ligado à base da sociedade. “O meu maior sonho é me tornar professora de história, para poder inspirar outros jovens a compreenderem o mundo e a valorizarem suas próprias origens, promovendo o respeito à diversidade”.
A veia pedagógica e artística também norteia Vitória Karoline Freire de Paiva, de 16 anos, aluna da Escola Estadual José Quintella Cavalcanti, em Arapiraca. Dançarina desde os nove anos e fã da música A Voz, Vitória utiliza os versos de Taylor Swift (“Everything you lose is a step you take”) como mantra de superação. “Sempre quis fazer faculdade de psicologia, mas depois que comecei a estudar para o intercâmbio me apaixonei pela língua inglesa. Hoje também penso em cursar Letras para atuar na educação e o programa com certeza vai me ajudar nisso”, reflete.
Da Zona da Mata, Maria Rita de Oliveira Cavalcante, de 17 anos, representa a Escola Estadual Olímpia Tenório Lima, em Girau do Ponciano. Fotógrafa, desenhista e escritora de narrativas ficcionais, Maria Rita encara as aulas de História de maneira cinematográfica e apoia-se no clássico lema “Carpe Diem”. “Eu gostaria de viajar o mundo, vejo essa viagem como o começo desse sonho e uma oportunidade de me preparar para o futuro. Eu adoraria cursar história ou letras inglês”, projeta.
Por fim, de Estrela de Alagoas, Weslley Ygor Moura de Almeida, de 17 anos, leva a alegria da Escola Estadual Luiz Duarte para a comitiva. Poliglota em formação, fã da estética cinematográfica de A Noiva Cadáver e guiado pela filosofia de Alice no País das Maravilhas (“A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”), ele resume o espírito adaptável do grupo. “Sou uma pessoa alegre, apaixonada por animais e aberta a viver novas experiências. Meu sonho é construir um futuro na perícia criminal e na psicologia para entender o comportamento das pessoas”.
Cenário de Cambridge
O cotidiano nas vias históricas de Cambridge tem funcionado como uma imersão cultural prática para o grupo de Alagoas. Ao longo destes primeiros dias, a vivência urbana dos estudantes passou a ser emoldurada por cartões-postais de importância global. O grande destaque do roteiro de exploração dos jovens é a imponente Capela do King’s College, uma joia da arquitetura gótica perpendicular que possui a maior abóbada de leque do mundo e vitrais medievais preservados.
Essa inserção geográfica também aproximou a comitiva de dinâmicas comunitárias tipicamente britânicas às margens do Rio Cam, que corta os chamados The Backs (os deslumbrantes jardins traseiros dos colégios universitários). Guiados pelos moradores locais, os estudantes passaram a conhecer o movimento do punting — as tradicionais embarcações de fundo chato empurradas por varas de madeira —, navegando por baixo da famosa Ponte dos Suspiros e da intrigante Ponte Matemática (famosa pela lenda de ter sido projetada por Isaac Newton sem o uso de parafusos).
Também terão a oportunidade de visitar o Museu Fitzwilliam, lar de relíquias da arqueologia mundial, e ao icônico Laboratório Cavendish, onde grandes cientistas revolucionaram a física moderna.

