Na secretaria da Escola Estadual Romeu de Avelar, em Maceió, o cotidiano costuma ser feito de papéis, planilhas, carimbos e registros. Quem trabalha naquele espaço talvez não imagine que uma das pessoas responsáveis por organizar a vida administrativa da escola também já passou por sets de filmagem, câmeras e diretores de renome do cinema brasileiro. E integra o filme que, neste domingo (15), representa o Brasil no Oscar.
Servidora da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) e há 15 anos atuando como secretária escolar da Escola Estadual Romeu de Avelar, Ane Oliva participou de “O Agente Secreto”, o premiado longa dirigido por Kléber Mendonça Filho indicado em quatro categorias do Oscar – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco.
Para quem vê a notícia de fora, pode parecer um episódio curioso: uma funcionária pública que também atua em um filme indicado ao maior prêmio do cinema mundial. Mas, a história de Ane está longe de ser um acaso. Antes de chegar às telas, ela passou décadas construindo uma trajetória silenciosa e persistente no teatro, nos bastidores do audiovisual alagoano e em projetos culturais espalhados por Maceió.

Antes das câmeras, o palco
Ane Oliva se define, antes de qualquer coisa, como atriz. Uma atriz que começou no teatro, há mais de trinta anos, quando ingressou no Curso de Formação de Atores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Foi ali que ela teve os primeiros contatos profissionais com a arte e encontrou o caminho que, décadas depois, a levaria até o cinema.
Durante muito tempo, seu território foi o palco e, principalmente, o teatro de rua. Integrante do tradicional grupo Joana Cajuru, um dos mais antigos de Alagoas, Ane participou de apresentações que transformavam praças, ruas e espaços públicos em cenário. Era um tipo de teatro direto, vivo, onde o público não estava separado por cortinas ou cadeiras numeradas.
Naquele período, pensar em cinema, para muitos artistas locais, era quase um exercício de imaginação. A produção audiovisual no estado ainda era pequena e dependente de projetos isolados.

Algumas oportunidades surgiam aqui e ali. Ane participou de curtas-metragens como “Desalmada e Atrevida”, dirigido por Pedro da Rocha, além de outros projetos independentes produzidos em Alagoas. Foi apenas nos últimos anos que o cenário começou a mudar.
Quando o cinema alagoano começou a crescer
A última década trouxe um movimento mais intenso de produções audiovisuais no estado. Com novos editais, políticas de incentivo e a chegada de equipes de fora, o cinema alagoano passou a ganhar fôlego. Foi nesse contexto que surgiu um projeto que mudaria o rumo de muitas carreiras locais.
Em 2017, o cineasta alagoano René Guerra iniciou as filmagens de “Serial Kelly”. A proposta era clara: montar um elenco e uma equipe majoritariamente formados por profissionais do estado. A decisão foi mais do que simbólica. 90% das pessoas envolvidas na produção eram alagoanas.
Para Ane e outros atores, aquilo representou algo raro: a chance de trabalhar em um longa-metragem relevante sem precisar sair de casa. “Foi um divisor de águas na nossa carreira”, diz.
No cinema, as conexões entre equipes são frequentes. Diretores de elenco, produtores e técnicos costumam circular entre diferentes projetos, levando consigo referências de profissionais com quem já trabalharam. Foi assim que o nome de Ane começou a aparecer em novas produções.

Depois de “Serial Kelly”, vieram outros convites. Entre eles, a participação em “Propriedade”, dirigido por Daniel Bandeira e estrelado por Malu Galli.Para a atriz alagoana, aquela experiência teve um peso especial. Ela lembra de chegar ao hotel após as gravações e se emocionar sozinha.
“Eu chorava de felicidade”, conta. “Era minha primeira experiência saindo de Alagoas para trabalhar com audiovisual. Foi quando eu pensei: é possível.”
A partir dali, o caminho se ampliou. Vieram novas participações, entre elas o longa “Carro Rei”, dirigido por Renata Pinheiro, onde contracenou com Matheus Nachtergaele. Também participou da série “Cangaço Novo”, produção do Prime Video que ganhou projeção nacional.
A escola como outro palco
Se o cinema ocupa uma parte importante da vida de Ane Oliva, a Educação ocupa outra. Servidora da Seduc desde 2005, ela trabalha como secretária escolar na Escola Estadual Romeu de Avelar, em Maceió.
O cargo é essencialmente administrativo, responsável por registros, documentos, históricos escolares e toda a engrenagem burocrática que mantém a escola funcionando.
Mas Ane nunca conseguiu olhar para aquele espaço apenas dessa forma. “Minha alma é de artista”, declara.
Antes mesmo de ingressar na escola, ela já havia trabalhado como professora de teatro em projetos culturais, inclusive em iniciativas da própria rede estadual. A experiência com Educação sempre caminhou paralelamente à vida artística. Para ela, as duas áreas não se separam.
“Não tem como dissociar Cultura e Educação. São duas áreas irmãs. Um país não se desenvolve se elas não estiverem caminhando juntas”, afirma. E foi com esse pensamento que começaram a surgir as primeiras ideias de projetos culturais dentro da escola.
Um cineclube dentro da escola pública
Entre as iniciativas criadas por Ane está o Cineclube Conexões Pedagógicas, projeto que transformou o audiovisual em ferramenta de aprendizado. A proposta surgiu a partir de uma pergunta simples: e se os conteúdos das aulas pudessem dialogar com o cinema?
A partir daí, professores passaram a escolher filmes que se conectassem aos temas trabalhados em sala de aula. As exibições são seguidas de debates e reflexões que ampliam a discussão para além dos livros didáticos.
“O cinema tem um poder enorme de ampliar a experiência educativa”, explica.
O projeto funciona em parceria com o Instituto Mundaú, ONG da qual Ane faz parte e que atua na promoção de atividades artísticas e formativas. Por meio dessa parceria, foi possível levar outras ações para dentro da escola: oficinas de teatro, fotografia e muralismo, além de atividades que aproximam os estudantes de espaços culturais da cidade.

A chegada do “Agente Secreto”
A participação em “O Agente Secreto” aconteceu de maneira quase casual. Ane soube pelas redes sociais que a produção estava selecionando elenco e decidiu enviar seu material. Depois veio o pedido de teste.
O processo, conhecido como self-tape, consiste em gravar a própria cena e enviá-la para avaliação da produção. Ane preparou o material em casa, durante a madrugada. A sequência que ela precisava interpretar era forte.
Inspirada no caso do menino Miguel, a criança que morreu após cair de um prédio em Recife, em um episódio que chocou o país, a cena exigia uma carga emocional intensa. No dia seguinte, recebeu uma mensagem da equipe de elenco. A assistente de produção dizia que havia chorado ao assistir à gravação.
Trabalhar com Kléber Mendonça Filho, diretor pernambucano premiado no Festival de Cannes por “Bacurau”, em 2019, era um desejo antigo da atriz. “Qual ator ou atriz não quer trabalhar com Kléber Mendonça?”, comenta. E, para sua alegria, não era a única alagoana no filme de elenco majoritariamente nordestino: lá também estavam Igor Araújo, Albert Tenório e Aline Marta.
E junto ao elenco, Ane também se fez presente em Cannes em 2025, e, no festival francês, o longa arrebatou suas primeiras premiações internacionais: melhor diretor para Kléber Mendonça Filho e melhor ator para Wagner Moura
Agora, vendo o filme chegar ao Oscar 2026 após conquistas no Critics Choice Awards e Globo de Ouro, ela acompanha o momento com orgulho pelo próprio trabalho e pelo reconhecimento do cinema brasileiro no cenário internacional.
E na escola onde trabalha, a torcida pelo filme é grande. “Todos os dias parabenizamos Ane por esta conquistas. Todos estamos muito felizes pelas premiações conquistadas pelo filme”, fala a gestora-geral Sílvia Bueno.

Vitória do cinema brasileiro
Enquanto aguarda o resultado da premiação, Ane segue com a rotina de sempre. Entre a escola, os projetos culturais e os trabalhos como atriz, continua transitando entre dois mundos que, para ela, nunca estiveram separados.
Independentemente do resultado, ela acredita que o cinema brasileiro já conquistou algo importante. “Só de estarmos lá, pelo segundo ano consecutivo, isso já é uma vitória”, enfatiza.





