Ufal passa a integrar rede nacional pesquisas alternativas ao uso de animais

Credenciamento de dois laboratórios do IQB e ICBS contribui para estudos de métodos alternativos

Por Por Manuella Soares - jornalista

28/10/2026 -

08:48h

A Universidade Federal de Alagoas (Ufal) alcançou um importante espaço para a pesquisa científica com o credenciamento de dois laboratórios na Rede Nacional de Métodos Alternativos ao Uso de Animais (Renama). Até então, Alagoas não contava com nenhum laboratório vinculado à rede, que reúne instituições de pesquisa dedicadas ao desenvolvimento de técnicas capazes de reduzir ou substituir o uso de animais em experimentos científicos.

Os novos integrantes são o Laboratório de Microbiologia Ambiental e Médica (Lamam), do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), coordenado pela professora Thais Fernanda de Campos Fraga da Silva, e o Laboratório de Bioenergética, do Instituto de Química e Biotecnologia (IQB), sob a coordenação da professora Ana Catharina Rezende Leite.

Além do credenciamento, o grupo liderado pela professora Ana Catharina teve um projeto aprovado na Chamada CNPq/MCTI nº 11/2026, conquistando financiamento de mais de R$ 802 mil para a implantação e o desenvolvimento de novas metodologias de pesquisa. A proposta foi uma das três selecionadas na região Nordeste.

Criada em 2012, a Renama é uma iniciativa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que busca fortalecer a infraestrutura científica brasileira para o desenvolvimento, a validação e a disseminação de métodos alternativos à experimentação animal. A rede, por meio de seus Laboratórios Associados, representa a infraestrutura para a realização de ensaios não clínicos no Brasil e está presente em todas as regiões, com mais de 50 laboratórios públicos ou privados.

Pesquisas em microbiologia e imunologia

Localizado no ICBS, o Laboratório de Microbiologia Ambiental e Médica (Lamam) desenvolve pesquisas relacionadas a doenças causadas por fungos e bactérias, epidemiologia molecular, interação entre microrganismos e hospedeiros e regulação da resposta imunológica.

Desde 2024, o laboratório utiliza métodos alternativos baseados em cultivo celular e no modelo experimental Galleria mellonella, uma espécie de inseto que permite investigar processos de infecção e respostas biológicas sem recorrer, em determinadas etapas, a animais vertebrados. “Em relação ao modelo in vitro de cultivo celular, trabalhamos com linhagens celulares humanas, células epiteliais e fagocíticas”, acrescentou, sobre as pesquisas que já estão em andamento.

A implantação dessas metodologias foi viabilizada por recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), por meio do edital Pró-Equipamentos, no qual a professora Thais foi contemplada. Para a pesquisadora, a entrada na Renama representa mais oportunidades de parcerias científicas.

“A inserção na Renama poderá ampliar a capacidade nacional de desenvolvimento, implementação e disseminação de métodos alternativos reconhecidos pelo princípio dos 3Rs, favorecendo a integração com laboratórios de referência e fortalecendo redes colaborativas voltadas à validação e harmonização metodológica”, destacou Thais.

Ela cita ainda o aperfeiçoamento de protocolos e o fortalecimento da formação de estudantes de graduação e pós-graduação, além de expectativas para a participação em novos editais de financiamento.

A avaliação técnica que recomendou a inclusão do Lamam na Rede reforçou a consistência de sua produção científica, a infraestrutura disponível e o potencial de contribuição para o desenvolvimento e a disseminação de métodos alternativos, como defende Thais: “Essa é uma nova tendência, diante de uma demanda nacional e internacional de utilizar modelos alternativos, sem o uso de animais vertebrados. É o caminho do futuro da pesquisa”.

A professora reforça que isso não elimina completamente a necessidade de experimentação animal em todas as áreas. “Para teste de vacinas, por exemplo, uma etapa tem que passar pelos animais, mas a gente consegue reduzir significativamente com esses modelos alternativos”, explicou.

Projeto do IQB conquista mais de R$ 800 mil

No Instituto de Química e Biotecnologia, a conquista foi dupla. Além de conseguir o credenciamento na Renama, a equipe coordenada pela professora Ana Catharina Rezende Leite obteve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para estruturar e desenvolver as atividades do Laboratório de Bioenergética.

A pesquisadora conta que o projeto começou a ganhar forma no ano passado, quando conseguiu um espaço físico no instituto para trabalhar com modelos alternativos. A publicação da chamada nacional trouxe a oportunidade de transformar a proposta em realidade.

“Estávamos buscando uma forma de montar o laboratório quando surgiu o edital. Juntamente com outros dois professores do IQB, que já trabalhavam com modelos alternativos, escrevemos o projeto e solicitamos o credenciamento. Para nossa alegria, conseguimos as duas coisas”, comemorou Ana Catharina.

Além dela, a proposta reúne os professores Edeildo Ferreira da Silva-Júnior e Tatiane Balliano, todos do IQB, e o professor Diego Martinez, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

O projeto utiliza três modelos experimentais para avaliação de toxicidade: Daphnia similis, um pequeno organismo aquático amplamente empregado em estudos de ecotoxicidade no IQB; Zophobas morio, um inseto que se transforma em besouro na fase adulta; e Blaptica dubia, uma espécie de barata que também já é utilizada em estudos de toxicidade no Instituto.

A proposta é desenvolver e validar testes a partir desses organismos, com mais possibilidades de investigação dos efeitos de diferentes substâncias. O grupo pretende adaptar abordagens utilizadas em ensaios recomendados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), avançando na padronização de protocolos que possam ser empregados por outros pesquisadores.

Segundo Ana Catharina, uma das metas é que, após os processos necessários de validação e reconhecimento, os métodos desenvolvidos sejam ser submetidos à avaliação para uma possível incorporação à Farmacopeia Brasileira, referência nacional para padrões de qualidade de medicamentos e insumos farmacêuticos.

Parcerias e formação de novos pesquisadores

Outra contribuição do projeto é a cooperação científica com o Laboratório de Nanotoxicologia do CNPEM, coordenado pelo professor Diego Martinez. A parceria prevê intercâmbio de conhecimentos e experiências entre os grupos, fortalecendo a implantação das metodologias na Ufal.

Ana Catharina já participou de um treinamento no centro de pesquisa e acredita que os recursos conquistados permitirão intensificar essa colaboração.

“Com a aprovação do projeto, teremos um intercâmbio maior entre os grupos. Também teremos bolsas para estudantes, o que engrandece muito a proposta, pois contaremos com alunos dedicados ao desenvolvimento de protocolos que poderão, posteriormente, ser utilizados por outros grupos interessados em colaborar”, destacou.

O financiamento integra a Chamada CNPq/MCTI nº 11/2026, que prevê recursos nacionais para fortalecer laboratórios, capacitar pesquisadores e incentivar o desenvolvimento de Novas Metodologias de Abordagem (NAMs), como são conhecidas as estratégias inovadoras que buscam reduzir a dependência de modelos animais tradicionais.

Com os dois credenciamentos, a Ufal coloca Alagoas no cenário brasileiro de desenvolvimento de métodos alternativos, uma área em expansão que reúne inovação tecnológica, qualidade dos resultados científicos e compromisso com práticas de pesquisa mais responsáveis.